Os Caminhos da cura passam pelo coração

Perdão é uma palavra que possui inúmeras definições. Significa decisão, atitude, processo e modo de vida. É algo que oferecemos aos outros e às vezes aceitamos. É uma decisão de ver além dos limites de nossa personalidade, além dos medos, idiossincrasias, neuroses e erros. De ver uma essência pura, não condicionada pela nossa história pessoal.

Perdoar é um estilo de vida que gradualmente nos transforma de vítimas das nossas circunstâncias em poderosos e amorosos co-criadores da nossa realidade. Como modo de vida envolve o compromisso de experimentar cada momento de maneira nova, clara, sem medo, sem a interferência de percepções passadas. Ele é o fim que obscurece a nossa capacidade de amar.

A raiva, o ressentimento, a hostilidade, a vergonha e a culpa afetam de forma direta o bem-estar físico. Como qualquer reação humana baseada no medo, emoções como raiva e culpa influenciam não só o humor como também a fisiologia. A psiconeuroimunologia apresenta grande número de provas de que a paz de espírito, alegria, otimismo e amor se traduzem em respostas bioquímicas que ativam um sistema de cura inato dentro do corpo. Esses sentimentos, além de gerarem saúde emocional, estimulam a cura de sintomas físicos.

Em situações desgastantes, o mecanismo de reação de luta ou fuga permite-nos entender como o medo, raiva, ressentimento, vergonha e culpa afetam o corpo. Quando uma reação de luta-fuga (estresse) é ativada, são alteradas a digestão, assimilação e eliminação de substâncias do organismo, pois se fecham os vasos sangüíneos existentes no estômago e intestinos.

O desgaste emocional ainda aumenta o fluxo sangüíneo para os grupos de grandes músculos, cérebro, coração e pulmões. A pressão sangüínea sobe, a pulsação acelera e o batimento cardíaco aumenta. A bioquímica do sangue se altera. Há liberação de hormônios de tensão, adrenalina e noradrenalina, açúcar e ácidos de gordura que são jogados no sangue, servindo como combustível da atividade muscular. Essas reações são normais frente à ameaças no sentido de sobrevivência.

Pessoas ou circunstâncias que nos causam raiva ou nos ameaçam não precisam estar presentes para que tais reações sejam despertadas. Como o sistema nervoso não distingue eventos que estão ocorrendo ou que estão sendo revividos, não só experimentamos desgaste físico e emocional cada vez que nos zangamos, mas também cada vez que nos recordamos da raiva.

Algumas pessoas são mais vulneráveis ao colapso emocional durante o estresse, talvez por meio da depressão, letargia, indecisão ou hostilidade. Outros são mais vulneráveis nos colapsos físicos como problemas nas juntas, músculos, sistema respiratório, ou depressão do sistema imunológico. Os sintomas podem incluir dor de cabeça (cefaléias), irritações da pele, problemas gastrointestinais, câncer, herpes, hipertensão, cardiopatias, entre outros.

Um sistema imunológico em baixa deixa-nos vulneráveis à gripes e resfriados e também a doenças auto-imunes, como artrites reumatóide e lúpus. Também afeta a habilidade do corpo de se livrar das células cancerígenas.

O doutor Simonton, pioneiro na divulgação da relação entre fatores emocionais e câncer, identifica como característica psicológica chave das pessoas com tendência ao câncer “uma inclinação a guardar ressentimento a uma incapacidade de perdoar.” O ressentimento crônico suprimido pode ser o fator mais significativo na deficiência do sistema imunológico.

Quando as células do câncer se formam, como acontece com todo mundo, o sistema imunológico saudável livra-se delas e impede a proliferação. Os hormônios de estresse, que são ativados pela raiva e ressentimentos, afetam esse processo natural de eliminação de células cancerígenas.

Pesquisas mostram que a alegria, sentimentos de paz e o perdão são indicadores fortes de uma solução positiva no tratamento de câncer de mama. O bom relacionamento das pacientes com o médico, terapeuta ou pessoas que fazem parte da sua vida também são de importância primária.

O estresse, raiva de hostilidade e falta de perdão estão envolvidos de uma forma direta na saúde do coração. Provas científicas mostram que corações confiantes e livres de mágoas vivem vidas mais longas e saudáveis.

Estudos mostram que a pressão arterial sobe, aumentam os batimentos cardíacos, tensões musculares ficam mais altas em pessoas que eram levadas a lembrarem situações difíceis que não conseguiram perdoar. Isto sugere que a resposta ao estresse é maior em situações que não houve o perdão do que nas que conseguiram perdoar.

O tipo de personalidade, segundo Friedman e Rosenman, muito ambiciosa e competitiva, sempre apressada e facilmente levada à hostilidade e raiva por irritações diárias, predispõe o indivíduo a doenças cardiovasculares. Ficou patente que, neste tipo de personalidade, que o gatilho para tais afecções estão na raiva e na hostilidade suprimidas com conseqüências biológicas sérias.

Mesmo destacando o câncer e as doenças coronárias, a raiva e a culpa podem manifestar- se com sintomas físicos de várias maneiras. O corpo comunica-se por metáforas na tentativa de resolver conflitos. A dor no peito talvez esteja sugerindo a dor emocional de um coração que não deixa o amor entrar ou sair.

Antes de utilizar o perdão em relações mais íntimas, é importante lidar com o sofrimento pessoal, tristeza, raiva, ressentimento e culpa. O perdão é essencial para a cura e para a experiência de nossa totalidade. Para experimentar essa totalidade, nenhuma parte de nós pode ser negada.

Qualquer pessoa criada em ambiente hostil, onde sofreu abusos físicos ou emocionais, rejeição, abandono, deve perdoar para curar-se plenamente. Antes de perdoar, deve assumir a dor que experimentou, reconhecê-la, avaliá-la e admitir que ela é verdadeira. Assumindo a dor do passado, ela se transforma na própria riqueza da vida.

Anestesiar ou negar nossa dor e raiva com drogas, álcool, compras, trabalho, doença ou com um verniz de doçura e aceitação não nos livra dela.

Perdão acarreta a autêntica aceitação do nosso valor como seres humanos, a compreensão de que os erros são oportunidades para o crescimento, para a consciência e para o cultivo da compaixão e a percepção da extensão do amor para nós mesmos e para os outros. Perdão é uma atitude. Ele apela à razão, às entranhas e ao coração.

Lúcia Miranda
Psicóloga especializada em terapia para cardíacos.

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A Doença Como Caminho: O Câncer

Eis aí a chave do câncer. Não é por acaso que tantos sofrem de câncer em nossa época, e que o fato de combatê-lo por todos os meios obtém tão pouco êxito. O câncer é uma expressão da época moderna e da nossa visãocoletiva de mundo.

A célula cancerosa não pode simplesmente segurar uma vela para iluminar a cegueira e a miopia da humanidade contemporânea. Em virtude de visarmos apenas a expansão econômica, nós usamos o meio ambiente como fonte alimentar e anfitrião e, atualmente, constatamos surpresos que a morte desse hospedeiro implica a nossa própria morte.

De onde as pessoas que se comportam dessa maneira tiram a coragem e a
ousadia para se queixarem do câncer? Afinal, ele não passa de um espelho
que mostra o nosso comportamento, nossos argumentos e, também, o fim do
nosso caminho.

Para entendermos o câncer é muito importante que raciocinemos em termos analógicos. Precisamos nos tornar plenamente conscientes do fato de que toda entidade perfeita que percebemos ou definimos (ou seja, um todo entre outras totalidades) é por um lado parte de um todo maior e, ao mesmo tempo, compõe-se de todos menores.

Assim sendo, por exemplo, um bosque (como um todo definido) não só faz parte de um todo maior (a zona rural), mas é também constituído de muitas árvores (todos menores).

O mesmo vale para cada árvore isolada. Ela não só faz parte da floresta, como também é composta por tronco, raízes e copa. A relação entre o tronco e a árvore é a mesma entre a árvore e o bosque, ou entre o bosque e a zona rural em que está.
Cada um de nós é parte da raça humana, e ao mesmo tempo consistimos em órgãos que não só fazem parte de um ser humano, como simultaneamente são feitos de uma multiplicidade de células, as quais por sua vez são partes do próprio órgão.

A raça humana espera que cada um de nós se comporte da melhor forma possível como indivíduo a fim de servirmos ao desenvolvimento e à sobrevivência da humanidade como um todo.

Cada um de nós, por sua vez, espera que seus órgãos funcionem com perfeição no interesse de sua sobrevivência como ser humano.

E o órgão espera que suas próprias células cumpram seu dever no que se refere à sua sobrevivência.
Dentro dessa ordem hierárquica, que pode ser estendida ao infinito em ambas direções, cada ser é um todo numa situação de conflito constante entre seu tipo específico de vida por um lado, e sua subordinação aos interesses da entidade hierarquicamente superior, por outro.

Cada organismo complexo (humanidade, Estado, órgão) tem seu funcionamento organizado de tal modo que suas partes cheguem tanto quanto possível à idéia comum e trabalhem em seu benefício. Todo sistema pode normalmente enfrentar o fracasso de algumas de suas partes constituintes, sem por em risco o todo. No entanto, existe um limite além do qual a existência em si passa a correr perigo.
Sendo assim, um Estado pode sair-se bem mesmo que alguns cidadãos se recusem a trabalhar ou se comportar de modo anti-social, revoltando-se contra ele. Se, no entanto, este grupo de elementos subversivos aumentar muito, pode acabar com um tamanho que passa a ameaçar a existência contínua do todo. Como é natural, o Estado devotará bastante tempo à tentativa de se defender desse desenvolvimento, combatendo em nome da própria existência. Se essa tentativa falhar, seu colapso é inevitável. A abordagem mais promissora seria fazer os dissidentes voltarem a tempo para o grupo, oferecendo-lhes oportunidades irrecusáveis de cooperar com um trabalho que visasse um objetivo comum. A longo prazo, contudo, o método habitualmente usado pelo Estado é eliminar de forma radical seus desafetos. Tal estratégia levará ao caos. Do ponto de vista do Estado, as forças da oposição são inimigos perigosos cujo único objetivo é destruir a “velha e boa organização” a fim de disseminar a desordem.
Embora perfeitamente justo, esse modo de analisar os fatos peca pela sua unilateralidade. Se perguntássemos a opinião dos anarquistas ouviríamos argumentos muito diferentes e bastante justificáveis do seu ponto de vista. O certo é que não se identificam com os objetivos e as pretensões do Estado, porém apresentam pontos de vista e interesses opostos que gostariam de ver concretizados. O Estado exige obediência; tais grupos querem liberdade para realizar seus próprios ideais. Podemos entender ambos os lados, no entanto não é fácil concretizar os interesses das duas facções sem que ao mesmo tempo haja uma espécie de sacrifício.
A intenção destas explicações não é de forma alguma desenvolver qualquer teoria política ou social, mas antes de apresentar o câncer num outro nível, tentando ampliar o ângulo de visão geralmente restrito com que é analisado. O câncer não é um acontecimento isolado que só aparece nas formas cancerosas; ele é igualmente encontrado com freqüência em processos bastante diferenciados e inteligentes que também dão trabalho aos homens em outros âmbitos da vida.

No caso de quase toda as outras doenças vemos uma tentativa do corpo para lidar com a dificuldade funcional através da adoção de medidas adequadas. Se tem sucesso, falamos em cura (que pode ser mais ou menos perfeita). Se o corpo não tem êxito e seus esforços para debelar a doença são frustrados, falamos em morte.
Mas, no caso do câncer, vemos algo essencialmente diferente: o corpo assiste como um número crescente de suas células mudam de comportamento e, através de uma participação ativa, iniciam um processo que por si mesmo não leva a nenhum resultado, mas que de fato descobre seus limites no esgotamento do hospedeiro (solo nutritivo). A célula cancerosa não é, como por exemplo, as bactérias, os vírus ou as toxinas, algo que vem de fora, pondo em risco o organismo; ela é uma célula que até então estava a serviço do órgão e assim atendia ao organismo como um todo lhe proporcionando a melhor chance de sobrevivência possível. Mas, subitamente, sua orientação se modifica e ela abandona a identificação comum. Ela começa a desenvolver e concretizar objetivos próprios sem a menor consideração pelas demais células. Ela encerra a sua atividade habitual, ou seja, sua função específica dentro do órgão, e coloca seu próprio desenvolvimento em primeiro plano. Ela não se comporta mais como um membro do ser vivente multicelular, porém regride a um nível primitivo de existência, como célula isolada na evolução histórica. Rompe sua união com a comunidade celular e, a partir daí, espalha-se com rapidez e indiferença através de uma divisão caótica, desrespeitando os limites morfológicos (infiltração), e construindo por toda parte seus pontos de apoio (metástases). O que sobra da comunidade celular da qual se excluiu é usado como um anfitrião que lhe dá de comer. As células cancerosas se multiplicam e crescem tão depressa que os vasos sanguíneos não são mais capazes de manter um suprimento adequado de sangue. É assim que as células cancerosas regridem da respiração oxigenada para um processo mais primitivo, de fermentação. Respirar depende da comunidade (numa base de troca); a fermentação é algo que qualquer célula consegue fazer por conta própria.
Este processo muito bem sucedido de autodisseminação das células cancerosas acaba se detendo depois de terem literalmente devorado a pessoa que usaram como fonte de alimentação. Finalmente, as células cancerosas passam por um sério problema, ou seja, tem dificuldade com o suprimento nutritivo. Mas até esse momento seu comportamento é coroado de êxito.
Neste ponto surge a questão: como será que células até então bem-comportadas podem fazer isso? Na verdade, seus motivos podem ser acompanhados com bastante facilidade. Como membro obediente de um ser multicelular humano, a célula tem apenas de executar a função específica que lhe é destinada, e que serve para assegurar a sobrevivência do organismo maior. Num dado instante, porém, certa célula é forçada a começar a cumprir a pouco atraente função de uma outra. Durante bastante tempo ela de fato faz isso. No entanto, num determinado ponto, o organismo maior deixou de se interessar pelo contexto do desenvolvimento daquela célula em si mesma. Um organismo unicelular é livre e independente; pode fazer o que quiser, pode tornar-se imortal propagando-se ao infinito. Como parte integrante de um organismo multicelular, a célula tanto é mortal como restrita. Acaso pode causar espanto se ela recordou sua antiga liberdade e resolveu mudar de vida, passando a ser uma célula isolada a fim de concretizar sua imortalidade através de esforços individuais? Ela subordina a antiga comunidade de células aos seus próprios interesses e com seu comportamento irresponsável, começa a conquistar a própria liberdade.
A abordagem por certo bem sucedida de usar outras células como fonte de alimentação é um método cujo erro só se torna visível com o tempo, pois assim está determinado também o próprio fim. O comportamento da célula cancerosa só obtém êxito enquanto o hospedeiro viver – a morte da pessoa doente significa o fim do desenvolvimento canceroso.
Existe aqui um pequeno erro de conseqüências graves para o conceito de concretização da liberdade e da imortalidade. Declaramo-nos desligados da antiga comunidade e percebemos, tarde demais, que ela nos é necessária. O ser humano não sente nenhum prazer em sacrificar a vida pela célula cancerosa e, no entanto, esta também não se sente nada contente em sacrificar a vida pelo ser humano. A célula cancerosa tem argumentos tão válidos como a pessoa, só que seu ponto de vista é outro. Ambos querem viver e concretizar seus desejos de liberdade e seus interesses. Para tanto, ambos estão dispostos a sacrificar um ao outro. No nosso exemplo “estatal” não foi diferente. O Estado, tanto quanto seus opositores, também quer viver e concretizar seus ideais. É por isso que o Estado tenta em primeiro lugar sacrificar os anarquistas. Se assim não obtém êxito, este sacrifica o Estado. Nenhum dos partidos leva o outro em consideração. O homem passa por cirurgias e faz aplicações de cobalto e quimioterapia contra as células cancerosas até onde puder – mas, se elas vencerem, sacrificam o paciente. Trata-se do antigo conflito da natureza; comer ou ser comido. É claro que o paciente vê a indiferença e a desconsideração das células cancerosas e também sua falta de visão; contudo, será que ele também vê que se comporta exatamente do mesmo modo, que tenta assegurar sua sobrevivência usando dos mesmos meios?
Eis aí a chave do câncer. Não é por acaso que tantos sofrem de câncer em nossa época, e que o fato de combatê-lo por todos os meios obtém tão pouco êxito. O câncer é uma expressão da época moderna e da nossa visão coletiva de mundo. Sentimos em nós como câncer somente aquilo que de fato vivemos. Nossa era é caracterizada pela expansão e pela concretização desconsiderada dos próprios interesses. Na vida política, científica, “religiosa” e privada, as pessoas tentam expandir seus objetivos e interesses sem consideração pelos limites; eles tentam criar por toda parte bases de apoio para seus próprios interesses (metástases), prestigiando unicamente seus ideais e objetivos, e escravizando assim todos os demais em seu próprio benefício (princípio do parasitismo).
Nosso todo racional é igual ao da célula cancerosa. Nossa expansão é tão rápida e bem sucedida que também nós mal podemos enfrentar os problemas de abastecimento. Nossos sistemas de comunicação, embora espalhados pelo mundo inteiro, ainda nos impedem a comunicação com nossos parceiros e vizinhos. Temos facilidades, mas não sabemos o que fazer com elas. Produzimos e destruímos substâncias alimentícias apenas para manipular seus preços. Podemos viajar pelo mundo inteiro, e mesmo assim não nos conhecemos. Nossa filosofia atual só admite um objetivo: crescer e progredir. Trabalhamos, fazemos experiências e pesquisas (contudo para quê?) Em nome do progresso! E qual será o objetivo desse progresso? Ainda mais progresso? A humanidade está envolvida numa viagem sem rumo. É por isso que tem de estabelecer continuamente novos alvos para não se desesperar. A célula cancerosa não pode simplesmente segurar uma vela para iluminar a cegueira e a miopia da humanidade contemporânea. Em virtude de visarmos apenas a expansão econômica, nós usamos o meio ambiente como fonte alimentar e anfitrião e, atualmente, constatamos surpresos que a morte desse hospedeiro implica a nossa própria morte. As pessoas contemplam o mundo como um grande celeiro: as plantas, os animais, as matérias-primas. Tudo existe unicamente para que as pessoas possam se espalhar de forma indiscriminada e ilimitada sobre a terra.
De onde as pessoas que se comportam dessa maneira tiram a coragem e a ousadia para se queixarem do câncer? Afinal, ele não passa de um espelho que mostra o nosso comportamento, nossos argumentos e, também, o fim do nosso caminho.
Não é preciso vencer o câncer: ele tem de ser compreendido, para que nós também possamos compreender a nós mesmos. Mas as pessoas sempre quebram seus espelhos quando a imagem não os agrada! As pessoas tem câncer porque elas são um cancro para a natureza.
O câncer representa uma grande oportunidade para descobrirmos nossos próprios erros de pensamentos e enganos. Façamos então uma tentativa para localizar os pontos fracos do conceito que usamos para definir o câncer como uma imagem do mundo. Em última análise, o câncer se vê diante da pedra miliária representada pela polaridade “eu ou a sociedade”. Este “ou…ou” é tudo o que ele consegue ver e, assim sendo, resolve buscar a sobrevivência por conta própria, à revelia do seu meio ambiente, e acaba por descobrir tarde demais que de fato depende dele. Na verdade, ele carece de toda percepção da unidade maior, todo-abrangente. Ele considera a unidade somente em termos do seu próprio autodelineamento. Essa incompreensão, ou compreensão equivocada da unidade, é compartilhada por seres humanos e tecido canceroso. Também nós nos dividimos mentalmente, também damos origem à divisão entre o “eu” e o “tu”, sem compreender a futilidade de pensar em termos de “unidades”. A unidade e a unicidade são a essência de tudo o que existe: fora dessa existência não há nada. Dividir a unidade em pedacinhos faz com que obtenhamos a diversidade; esta porém é o que, em última análise, se junta para formar uma unidade.
Quanto mais o ego se subdividir tanto mais perderá o senso da totalidade do qual ainda faz parte. É então que sucumbe à ilusão de que pode agir “sozinho”. Todavia, a palavra sozinho significa um-só e inclui um-só-com-tudo, e não o contrário, ou seja, a separação autêntica do resto do universo. Mais precisamente, o nosso eu apenas pode imaginá-la. Na medida em que o eu se fecha, o homem perde a sua ligação ancestral com a origem do seu ser. O ego tenta satisfazer suas necessidades e dita o rumo. Tudo isso é conveniente e certo para o eu, no que se refere a uma progressiva separação, a uma crescente diferenciação, visto que através da acentuação de cada limite ele se sente melhor. O ego só tem medo de tornar-se uno, pois isto significa a sua morte. O ego defende sua existência com muito alarido, inteligência e bons argumentos, e apresenta as mais sagradas teorias e as mais nobres intenções a seu favor: o principal é que sobreviva.
Enquanto o nosso eu se esforçar para alcançar a vida eterna, ele fracassará tal como a célula cancerosa. A célula cancerosa se diferencia da célula corporal através da supervalorização do seu ego. Na célula, o núcleo da célula corresponde ao seu cérebro. Na célula cancerosa, o núcleo aumenta constantemente de importância e isso amplia seu tamanho (o câncer também é diagnosticado através da modificação morfológica do centrossoma). A modificação desse núcleo celular corresponde à ênfase dada ao raciocínio mental egocêntrico do qual nossa época está impregnada. A célula cancerosa busca a vida eterna na multiplicação material e na expansão. Tanto a célula como o ser humano não compreende que buscam algo na matéria, num local onde não existe, mais precisamente, a vida. O homem confunde o conteúdo e a forma e tenta, através da multiplicação da forma, obter o ansiado conteúdo. Mas Jesus já dizia: “Quem quiser obter a vida eterna, tem de perdê-la”.
Todas as escolas iniciáticas ensinam desde épocas remotas o caminho oposto: sacrificar o aspecto formal a fim de obter o conteúdo ou, em outras palavras, o eu tem de morrer para que possamos nascer outra vez no Si-mesmo. Convém notar: este Si-mesmo não é o meu si-mesmo, mas é o Ser. Ele é o ponto central que está em toda parte. O Si-mesmo não tem uma existência especial, visto que abrange tudo o que existe. É aqui que se elimina a questão: “Eu ou os outros?” O Si-mesmo não conhece outros, visto que ele é o Todo-Um. Um objetivo como esse parece perigoso ao ego e muito pouco atraente. Por isso não devemos nos surpreender quando o ego empreende todos os esforços para trocar esse objetivo de unificação por um ego forte, grande, sábio e iluminado. No caminho esotérico, bem como no religioso, a maioria dos visitantes fracassa quando tenta obter a solução dos conflitos ou a iluminação por meio do eu. Muitos poucos entendem o fato de que o eu com o qual se identificam nunca poderá ser salvo ou iluminado.
A grande obra sempre pressupõe o sacrifício do eu, sempre pressupõe a morte do ego. Não podemos salvar o nosso eu, só podemos nos desapegar dele: neste caso, estamos salvos. O medo que mais surge nesse ponto, o de não existir mais, só comprova o quanto nos identificamos com o nosso eu e como sabemos pouco sobre ele. Justamente aí está a oportunidade para solucionar o problema do câncer. Só quando aprendermos a questionar de forma lenta e progressiva a rigidez do nosso eu e os nossos limites, e só quando nos abrirmos é que começaremos a nos sentir como parte do todo e, portanto, começamos a assumir responsabilidade também pelo todo. Nesse caso, também compreenderemos que o bem-estar do todo significa o nosso bem-estar, pois como parte somos simultaneamente unos com o todo. Toda célula contém a mesma informação genética geral do organismo: ela apenas tem de compreender que na verdade ela é o todo! A filosofia hermética nos ensina que o microcosmo é igual ao macrocosmo.
O erro de raciocínio que cometemos está na diferença entre o eu e o tu. Assim surge a ilusão de que como um eu podemos sobreviver muito bem, na medida em que sacrificarmos o tu e o usarmos como solo nutritivo. Na realidade, o destino não permite a separação entre eu e tu, entre parte e todo. A morte provocada pela célula cancerosa do organismo significa também a sua própria morte, assim como, por exemplo, a morte do meio ambiente incluiria a nossa própria morte. Todavia, a célula cancerosa, tal como os homens, acredita num exterior independente dela. Essa crença é mortal. O antídoto para ela chama-se amor. O amor nos torna perfeitos, visto que abre as limitações e permite a entrada do outro para que haja uma união. Quem ama não coloca o próprio eu em primeiro plano, mas vive uma grande totalidade. Quem ama sente o que acontece à pessoa amada como se acontecesse consigo mesmo. Isso não é válido só no âmbito humano. Quem ama um animal não pode considerá-lo do ponto de vista social como um produto nutritivo. Ao mencionar o amor não estamos nos referindo a um pseudo-amor sentimental, mas àquele estado de consciência que de fato capta algo da unidade de tudo o que existe, e não aquele comportamento, bastante frequente, no qual tentamos compensar os sentimentos inconscientes de culpa devidos à agressividade reprimida por meio de “boas-ações” ou de uma devoção exagerada aos animais. O câncer não mostra o amor vivido; o câncer é um amor pervertido!
O amor vence todas as barreiras e limitações.
No amor se unem e se fundem todos os opostos.
Amar é tornar-se uno com o todo; o amor se expande para tudo e não se detém diante de nada.
O amor não teme a morte, pois amar é viver.
Quem não viver este amor na consciência corre o risco de ver seu amor vincular-se à materialidade, tentando nesse âmbito fazer valer as leis que também regem o câncer.
A célula cancerosa vence todas as fronteiras e limites. O câncer elimina a individualidade dos órgãos.
O câncer se estende por tudo e não se detém diante de nada (metástases).
A célula cancerosa não teme a morte.
O câncer é o amor num nivel equivocado. A perfeição e a unidade só podem ser concretizada na consciência, não na matéria, visto que a matéria é a sombra da consciência. No mundo transitório das formas o homem não consegue concretizar aquilo que pertence a um âmbito eterno. Apesar de todo esforço dos reformadores do mundo, nunca haverá um mundo perfeito, sem conflitos e sem problemas sem lutas. Nunca haverá pessoas sadias sem doenças e morte, nunca haverá o amor todo-abrangente, já que o mundo das formas vive das limitações. No entanto, todos os objetivos podem ser concretizados – por cada um e a qualquer tempo – quando a pessoa conseguir enxergar através das formas e tornar-se livre em sua consciência. No mundo polarizado, o amor leva ao apego; na unidade, ele leva ao transbordamento. O câncer é o sintoma do amor mal-compreendido. O câncer só sente respeito pelo amor verdadeiro. E o símbolo do amor perfeito é o coração. O coração é o único órgão que não pode ser atacado pelo câncer.

Extraído do livro «A DOENÇA COMO CAMINHO»
Autores: Thorwald Dethlefsen & Rüdiger Dahlke

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